Todo ano, em 23 de janeiro, o mundo celebra o International Integrative Health Day. Essa data existe como um convite para que a gente faça uma pausa e reflita sobre aquilo que realmente sustenta uma medicina boa: o compromisso com o cuidado integral, com a curiosidade clínica, com a compaixão e com a construção de um sistema de saúde que não seja apenas reativo à doença, mas que inclina para a cura.
Eu escolhi falar sobre esse dia porque ele tem um significado muito especial na minha trajetória. Foi no Andrew Weil Center for Integrative Medicine, na Universidade do Arizona, onde eu fiz o Fellowship em Medicina Integrativa e me formei em 2019, que eu aprendi grande parte da estrutura que aplico até hoje dentro da minha prática.
Essa formação não foi uma experiência superficial: foi um treinamento robusto, organizado e profundo, que moldou a forma como eu penso saúde, prevenção e cuidado ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo, é importante esclarecer algo logo de início, com muita transparência: medicina integrativa não é medicina alternativa. Ela não substitui a medicina convencional e não existe para disputar espaço com o cuidado tradicional. Pelo contrário: ela é complementar.
A medicina integrativa surge justamente como uma forma de integrar e estruturar o cuidado da pessoa inteira, sem reduzir o ser humano ao diagnóstico, sem fragmentar o corpo em partes e sem desconectar sintomas de contexto. Trata-se de ampliar o olhar e qualificar o cuidado, com método, com organização e com responsabilidade clínica.
E aqui eu faço questão de enfatizar: medicina integrativa tem método. Existe uma ideia equivocada, muito difundida, de que integrativa é sinônimo de improviso, de estilo pessoal ou de algo subjetivo demais. Não é. Medicina integrativa é um modelo de cuidado com base estruturada, com currículo, com treinamento e com aplicabilidade clínica.
No Fellowship da Universidade do Arizona, essa estrutura se traduz em um programa com treze unidades curriculares, produzido por professores e especialistas reconhecidos internacionalmente e com diferentes perspectivas, disciplinas e modalidades.
Além do conteúdo teórico, há três semanas presenciais de experiências práticas e um componente essencial: a mentoria clínica estruturada, desenhada para ajudar cada profissional a aplicar os princípios da medicina integrativa na prática clínica real. Isso inclui discussões orientadas por especialistas, apresentações de casos, aprendizado colaborativo, troca entre pares e um ambiente de apoio técnico e profissional para que o médico saia seguro, competente e capaz de transformar o conhecimento em conduta e cuidado.
Dentro dessa formação, os temas abordados são amplos e extremamente relevantes para a prática médica de verdade.
Há um eixo forte em saúde nutricional, com abordagens e recomendações alimentares para promoção de saúde, prevenção e manejo de doenças. Existe um conteúdo específico sobre botânicos e suplementos, com foco em indicações clínicas baseadas em evidência, critérios de qualidade e, principalmente, interações entre suplementos e medicamentos. Há uma base sólida em práticas mente-corpo, que reconhece o impacto de fatores emocionais, mentais, sociais e comportamentais sobre a saúde e ensina como incorporar técnicas como meditação e outros recursos de cuidado mente-corpo na prática clínica. Também são estudados sistemas tradicionais de cuidado, como Medicina Tradicional Asiática e Ayurveda.
O ponto central é que tudo isso existe para formar profissionais capazes de tratar o ser humano como um todo. E essa proposta, longe de ser um nicho isolado, vem crescendo rapidamente dentro da própria educação médica.
A Universidade do Arizona, por meio do seu centro de medicina integrativa, foi o primeiro programa de medicina integrativa baseado em universidade, com mais de três décadas de liderança na área, e continua expandindo seu impacto.
Apenas no último ano, mais de cento e cinquenta novos médicos e profissionais avançados iniciaram sua jornada no Fellowship em Medicina Integrativa, seguindo para se juntar a uma comunidade global de mais de dois mil e quinhentos profissionais formados que atuam transformando o cuidado em diferentes países.
Isso reforça algo importante: medicina integrativa não é moda. É uma evolução do cuidado, com base educacional sólida, comunidade, estrutura e continuidade. É um movimento que honra pioneiros que ajudaram a levar essa abordagem para dentro do cuidado convencional, como o Dr. Andrew Weil, e também reconhece o papel dos profissionais e das comunidades que sustentam esse modelo com estudo, presença e compromisso.
Agora, trazendo isso para o Brasil, eu preciso esclarecer algo com a mesma transparência que sempre me guia.
Aqui no nosso país, medicina integrativa não é uma especialidade médica reconhecida. Por isso, eu não trabalho “como especialista em medicina integrativa” do ponto de vista de título formal – porque isso não existe no Brasil.
O que eu faço é aplicar a abordagem e os princípios que aprendi nessa formação internacional dentro da minha especialidade médica brasileira: Medicina Preventiva (RQE 14.434), e é dentro desse escopo, com ética, clareza e responsabilidade técnica, que eu incorporo essa visão integrativa ao cuidado que ofereço.
Na prática, isso significa que eu uso a medicina integrativa como uma base de raciocínio e como um conjunto de ferramentas complementares, organizadas e aplicáveis, para construir prevenção real, saúde duradoura e um cuidado mais humano, profundo e consistente.
Eu acredito que o futuro da medicina é exatamente esse: uma medicina que não reduz o paciente a uma lista de sintomas, que não fragmenta a saúde em pedaços e que não se limita a tratar quando a doença já está instalada, mas que integra conhecimento, cuidado, comportamento, contexto e estratégia clínica para apoiar as pessoas na direção do que realmente importa: viver com mais saúde, mais autonomia e mais qualidade de vida.
Por isso eu celebro o International Integrative Health Day. Porque essa data não celebra apenas uma área do conhecimento. Ela celebra uma forma de cuidar. Um compromisso com um tipo de medicina que respeita o ser humano inteiro, que pratica com curiosidade e compaixão e que entende saúde como algo construído, e não apenas resgatado quando se perde.
Se você acompanha meu Instagram, talvez já tenha notado o símbolo que eu escolhi para representar essa visão: as pedras empilhadas em equilíbrio (cairns, em inglês). Elas são frequentemente associadas à medicina integrativa porque traduzem, sem excesso de palavras, aquilo que sustenta o cuidado do todo: equilíbrio, presença e construção consistente – pedra sobre pedra, com método.
É por isso que essa imagem aparece na capa dos meus destaques em Medicina Preventiva e em um pequeno círculo inserido nas representações das minhas cidades: Brusque, com o pavilhão da Fenarreco, e Florianópolis, com a ponte Hercílio Luz, onde atendo presencialmente, com consultas estruturadas e foco em prevenção real, cuidado centrado na pessoa e estratégias clínicas sustentáveis ao longo do tempo.
Vem cuidar mais de você!
